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A herança invisível da honestidade Formar crianças honestas requer coerência, ensino claro e exemplos que mostrem o valor da verdade, como a vida de Jesus

Publicada em: 24/10/2025 14:12 -


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honestidade
A honestidade é semeada desde cedo, com cuidado, exemplo e orientação, demonstrando coerência, transparência e seguindo o exemplo de Jesus (Foto: Shutterstock).

Sempre fui a “menina das compras”. Desde pequena, eu era quem ia ao mercadinho da minha rua comprar leite e pão. Minha mãe anotava o que precisava em um papelzinho e, com o dinheiro, me mandava fazer as compras. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que decidi gastar o troco para comprar algumas balinhas. Na minha inocência de quatro anos, pensei que ninguém perceberia, mas essa idade já era suficiente para entender que eu estava sendo desonesta. E, como os pais costumam dizer, “a mentira tem perna curta”. 

E foi assim. Poucos minutos depois, minha mãe percebeu que algo não encaixava. Não houve gritos nem castigos, apenas um olhar firme e triste que dizia mais do que mil palavras. Naquela tarde, aprendi que a desonestidade não apenas quebra a confiança dos outros, mas também a paz interior. Foi meu primeiro encontro com o peso da consciência. 

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Com o passar do tempo, entendi que honestidade não se resume a não mentir ou devolver o troco certo. É um modo de viver com o coração limpo, sem disfarces nem máscaras. É decidir ser transparente, mesmo quando ninguém está olhando. E, embora pareça um valor antigo ou fora de moda, continua sendo uma das virtudes mais poderosas que podemos transmitir às novas gerações. 

Vivemos em uma cultura que valoriza o sucesso rápido, a imagem impecável e os resultados visíveis. As crianças crescem cercadas de mensagens que as empurram a competir, a se destacar, a “parecer” mais do que “ser”. Mas quando o sucesso é medido apenas pela nota mais alta, pelo prêmio ou pela aprovação dos outros, a honestidade se torna incômoda. Elas aprendem, sem querer, que os fins justificam os meios. 

Como adultos, temos a responsabilidade de ensiná-las que o verdadeiro valor não está no aplauso, mas na consciência tranquila. Que uma nota dez conseguida com trapaça não vale o mesmo que um sete conquistado com esforço e honestidade. 

Coerência no ensino 

A honestidade não se ensina apenas com sermões, mas com exemplos. Uma criança pode esquecer nossas palavras, mas dificilmente se esquece do que viu seus pais, professores ou líderes fazerem. Por isso, educar na honestidade exige coerência: cumprir o que prometemos, admitir nossos erros, não mentir “para evitar problemas” nem exagerar para parecer melhor. São detalhes pequenos, mas o caráter se forma neles. 

As crianças são observadoras silenciosas. Elas detectam a incoerência com uma rapidez que, às vezes, nos desarma. Quando ouvem um adulto falar de amor cristão e depois o veem agir com deslealdade ou engano, algo dentro delas se quebra. Por isso, um dos maiores ensinos que podemos oferecer é a autenticidade: viver a verdade com humildade. 

Educar na honestidade também implica acompanhar o processo quando elas falham. Às vezes, o aprendizado vem envolto em lágrimas. Quando uma criança mente ou comete um erro, o mais fácil é encobrir “para evitar constrangimentos”. No entanto, permitir que enfrente as consequências naturais de sua falha — como pedir desculpas, devolver o que pegou ou admitir seu erro — fortalece seu caráter mais do que qualquer castigo. Não se trata de humilhar, mas de ensinar responsabilidade. Nesse terreno fértil, a graça de Deus age, transformando o erro em oportunidade de crescimento. 

Há momentos em que a tentação de protegê-las é grande, especialmente quando o erro expõe nossa própria imagem como pais ou professores. Mas a integridade vale mais do que a reputação. Educar na honestidade é um ato de fé: confiar que a verdade, mesmo quando dói, sempre liberta. 

Formas de cultivar a honestidade nas crianças 

Existem muitas maneiras de fortalecer esse valor em casa ou na escola. Uma delas é reconhecer os esforços honestos mais do que os resultados. Quando elogiamos a perseverança, a atitude correta e o desejo de fazer o certo, mesmo que o resultado não tenha sido perfeito, estamos valorizando a integridade. 

Outra forma é ensiná-las a identificar os pequenos atos de desonestidade cotidiana — como copiar tarefas, justificar mentiras ou se aproveitar do descuido alheio — e refletir juntos sobre como essas pequenas decisões moldam o caráter. 

Também podemos nos apoiar em histórias. Os relatos bíblicos ou experiências reais que destacam a importância da verdade têm um poder transformador. Daniel e José são exemplos de vidas que escolheram a integridade acima da conveniência. E, é claro, o exemplo supremo: Jesus. 
Ele nunca mentiu, nunca prometeu o que não cumpriria, nunca buscou seu próprio benefício. Sua palavra era confiável porque sua vida também era. Por isso, quando ensinamos as crianças a dizerem a verdade, a reconhecerem erros e a serem fiéis à sua palavra, na verdade estamos guiando-as a refletirem o caráter de Cristo. 

Ellen G. White expressou isso com uma clareza que continua atual: “A maior necessidade do mundo é a de homens — homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus” (Educação, p. 57).  

E poderíamos acrescentar: também crianças assim. Crianças que aprendam desde cedo que a verdade não se negocia, que o coração se fortalece quando escolhem o que é certo, que ser honestas é uma forma de amar a Deus. 

Semear honestidade é acreditar em um futuro em que as promessas são cumpridas, a palavra dada tem peso e a confiança volta a ter valor. É presentear nossos filhos e alunos com a possibilidade de viver sem medo, sem o peso da culpa. Porque quem vive na verdade caminha leve. 

Talvez por isso, quando olho para trás e lembro daquela menina que gastou o troco em balas, não sinto culpa, mas gratidão. Porque aquele pequeno tropeço se transformou em uma grande lição. Ensinou-me que ser honesta não me torna perfeita, mas livre. 

E hoje, ao acompanhar outras crianças na descoberta da alegria de viver na verdade, entendo que aquele olhar firme da minha mãe foi mais do que uma correção: foi o começo de uma herança invisível que continua dando frutos. 

 
Cuca Lapalma

Cuca Lapalma

Construindo o futuro

Porque o futuro de nossa sociedade, das crianças de hoje, está em nossas mãos.

Bacharel em Psicopedagogia, deixou seu trabalho no centro de apoio escolar para se dedicar a cuidar de seus filhos pequenos. Atualmente formada como Licenciada em Letras, se dedica à tradução. Gerência um site com recursos digitais para os professores da Escola Sabatina das crianças chamado Adventprint e apoia fortemente o Ministério da Criança da Igreja Adventista na América do Sul.

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